Nesta semana, lideranças indígenas já contavam 118 infectados pelo novo coronavírus no estado do Mato Grosso do Sul, a maioria da etnia Guarani Kayowá, e a confirmação do primeiro óbito oficial -- um homem de 56. Quase a totalidade dos casos está na região de Dourados, cidade de 210 mil habitantes que se tornou o epicentro da COVID-19 no estado, com 1.964 casos totais. A capital Campo Grande tem 1.323 casos e população total de 700 mil pessoas.

 


O primeiro registro do novo coronavírus em indígena no Mato Grosso do Sul é de 13/05, de uma mulher de 35 anos trabalhadora do frigorífico da JBS. Unidades da empresa em todo país tem registrado surtos expressivos da doença. Na cidade de Trindade do Sul (RS), uma planta da companhia também provocou a disseminação da doença entre funcionários indígenas, e a justiça determinou que a empresa afastasse todos os indígenas da unidade por serem população do grupo de risco. Lideranças das terras indígenas Nonoai e Serrinha afirmam que em torno de 300 membros das comunidades estão vinculados aos frigoríficos da JBS na região.

Os indígenas estão mais vulneráveis à atual crise sanitária devido à dificuldade de acesso aos serviços de saúde. Ao mesmo tempo, os frigoríficos favorecem a disseminação do novo coronavírus por serem ambientes fechados, úmidos, com pouca circulação do ar e temperaturas baixas. O ruído do maquinário de refrigeração faz com que as pessoas tenham que gritar para serem ouvidas, espalhando gotículas de saliva no ar. Além disso, o modelo de trabalho nessas fábricas não permite o distanciamento seguro de 1,5 metro, além da existência de pontos de aglomeração de trabalhadores. Esses estabelecimentos são considerados serviços essenciais.

Situação crítica em Dourados

A maior preocupação das lideranças indígenas da região de Dourados é com o socorro às vítimas com sintomas graves. Comunidades denunciam que as autoridades locais estão se negando a fazer o resgate de ambulância de infectados em situação de emergência. Um vídeo que circula nas redes sociais mostra o membro de uma aldeia improvisando o transporte de moradores com intensa falta de ar.

O Ministério Público Federal (MPF) está abrindo uma ação de improbidade administrativa contra a prefeitura por conta do caso registrado em vídeo. "Em 2019 o SAMU se negou a resgatar uma jovem indígena que havia passado mal na aldeia. Conversamos com a prefeitura e houve o compromisso verbal de mudança desse protocolo de atendimento", relata Marco Antônio Delfino, promotor do MPF de Dourados. "Com a repetição desse comportamento durante a pandemia, estamos observando prática sistemática de racismo ambiental por parte dos serviços de saúde, que alegam que as aldeias são bairros perigosos ou de difícil acesso."

Há um Hospital Indígena na cidade, com 16 leitos para vítimas de COVID-19 - nenhum deles de UTI. O município inteiro só conta com 51 leitos de UTI (48 adultos e três pediátricos), uma parte deles recém-criados.

O isolamento social recomendado pelas autoridades de saúde para prevenção do novo coronavírus não é viável para os indígenas da região. Parte deles sai regularmente das aldeias para trabalhar no comércio, que segue aberto, ou nas usinas e fábricas. Outros dependem do trabalho informal fora das reservas, a chamada "changa". É o caso das mulheres que prestam serviços domésticos na cidade, geralmente sem vínculo trabalhista.

Muitos dos que estão em isolamento social estão sem nenhuma renda, já que parte dessa população não tem a documentação necessária ou acesso a serviços bancários para receber o auxílio emergencial. Na reserva indígena onde vivem 15 mil dos 17 mil indígenas de Dourados, comunidades já bastante empobrecidas estão enfrentando escassez de alimentos e outros itens básicos. Lideranças temem que o agravamento desse cenário gere uma crise psiquiátrica.

A Rede de Apoio e Incentivo Socioambiental (RAIS), se mobilizou para fazer EPIs sabão, alojamentos para isolamento social com 100 leitos, divulgação em carros de som, instalação de caixas d’água, além de arrecadar alimentos, roupas e dinheiro. "Essa ação é muito importante porque os Guarani e Kaiowa do Mato Grosso do Sul, depois de terem sido roubados, excluídos e contaminados pelo COVID-19, agora os responsáveis governamentais estão sonegando também atendimento básico aos doentes, como transporte, EPIs e outros insumos", denuncia Veronice Rossato, professora, indigenista e fundadora do RAIS.

Indígenas ameaçados em todo o mundo

Em todo o mundo, indígenas estão entre as populações mais vulneráveis à crise do novo coronavírus. No Brasil, a pandemia já atinge 110 etnias, de acordo com dados da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB). Ainda segundo essas entidades, o novo coronavírus infectou 7.208 indígenas, deixando 332 mortos. O Conselho Indigenista Missionário (CIMI) denuncia que a Funai executou R﹩ 6,2 milhões do total de R﹩ 23 milhões de reais de que o órgão dispõe para ações de combate à pandemia e proteção dos povos indígenas.

Brasil e Indonésia são pontos críticos para incêndios florestais como resultado do desmatamento desenfreado. À medida que a estação de incêndio se aproxima nos dois países, os sistemas de saúde podem entrar em colapso pela sobreposição da poluição das queimadas e a COVID-19.

Nos países africanos, a pandemia desacelerou a aprovação de leis em favor dos povos indígenas e das comunidades locais. Enquanto casos de COVID-19 aumentam nas aldeias, crescem relatos de violência e tentativas de invasão dos territórios em Uganda e no Quênia. Nos Estados Unidos, o acesso limitado a hospitais é uma das razões pelas quais indígenas correm mais risco na pandemia de coronavírus. Durante a pandemia de gripe H1N1 de 2009, a taxa de mortalidade nessa população foi quatro vezes maior que a média geral, segundo dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA. As informações são da ONG Clima Info. 
 
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